Magnifico Reitor,

Senhor Vice-reitor, Prof João Nuno Calvão da Silva

Família do Dr. Júlio Pereira

Senhor Dr. Pedro Passos Coelho,

Estou aqui em representação do Senhor Secretário Geral do SIRP, Embaixador Vítor Sereno que envia os seus cumprimentos e saudações, à família e à Universidade de Coimbra por este tributo e homenagem.

Em meu nome pessoal e institucional não me posso sentir mais honrado, por representar o SIRP, por esta Universidade ser também a minha “Alma Mater”, por dizer algumas palavras à família e aos presentes sobre um homem com quem trabalhei desde 1998 e de forma muita intensa e diretamente entre finais de 2010 e 2017. Muito obrigado pela oportunidade.

Ao Dr. Pedro Passos Coelho a minha gratidão e por me ter nomeado Diretor do SIS e pelo tempo que trabalhei sob sua tutela.

Júlio Pereira foi uma das figuras centrais da segurança institucional portuguesa dos séculos XX e XXI e um árduo defensor do interesse nacional em todas as missões que desempenhou, exemplarmente, enquanto servidor público.

Este Senhor fará muito falta a Portugal neste período do século XXI em que a tensão entre as grandes potências e as mudanças que daí advêm para a Europa serão profundas e irreversíveis.

Era um homem estudioso da história. À sua visão do mundo não faltava, por isso, enquadramento histórico, o que muito contribuía para fosse respeitado e ouvido. De facto, tinha qualidades muito raras de um analista estratégico, mas cauteloso na formulação de cenários. Era pragmático e conciso nas palavras.

Olhando para o presente, Júlio Pereira fará falta também ao decisor político, dada a sua capacidade de aconselhar em momentos difíceis, em particular se a tomada de decisão envolvesse riscos para o interesse nacional. Era bom conselheiro, não apenas por ser intelectualmente íntegro, mas porque nunca lhe foram conhecidos outros interesses que não os do Estado, enquanto esteve ao Serviço da Nação.

O país deve-lhe tributo sempre que foi chamado a estabelecer pontes, por vezes difíceis de construir, e que ajudaram à defesa dos interesses nacionais. Quantos problemas não se evitam quando alguém contribui para desfazer equívocos ou para os evitar? Foi isso que o Júlio Pereira fez, tantas vezes, em contextos geopolíticos, na altura ainda turvos e, simultaneamente, prenunciadores de que um país como Portugal, aberto ao Mundo, não poderá jamais desperdiçar os laços históricos e culturais, forjados ao longo da sua História, em paragens tão distantes do seu território.

Soube quem teve de saber, expressão tantas vezes por ele repetida. Tal como, soube quem teve de saber, a validade do seu contributo para a defesa dos interesses de Portugal nos dossiers relativos à Transferência da Soberania de Macau para a Républica Popular da China.

Na única grande entrevista que deu ao Jornal Expresso e na qual, talvez pela primeira vez, falou de si próprio, referiu que quando chegou a Macau, em 1985, tinha então 32 anos, estava convicto que via com os dois olhos, mas, na verdade concluiu, que via só com um.

A permanência de Júlio Pereira na coordenação dos Serviços de Informações, durante mais de uma década, deve-se muito à sua capacidade de “ver com os dois olhos” e de, ao mesmo tempo, ter mantido uma ligação profunda à “Terra Fria”, onde sempre esteve refugiado e onde se passam “nove meses de inverno e três de inferno”.

Júlio Pereira trouxe consigo para as Informações uma lucidez e uma perseverança que foram fundamentais para enfrentar, com resistência, as grandes transformações que se faziam sentir no ambiente de segurança a nível mundial quando assumiu o cargo de Secretário-Geral.

Para fazer face a um quadro de segurança mais complexo, imprevisível e transnacional, Júlio Pereira, defendeu, até à exaustão, com a solidez imbatível que revelava em tudo aquilo em que se empenhava, a criação de um Serviço de Informações único. Estava convicto de que a unificação dos serviços iria dar uma “nova dimensão qualitativa e uma nova capacidade” a este sector tão importante do Estado.

Partiu, sem que a sua ideia vingasse. Quantas e quantas vezes se reacendeu a esperança de mudança e quantas e quantas vezes ela se desvaneceu nas teias da política nacional, sem que aquele homem de aparência austera, silencioso, introspetivo, aparentemente solitário, tenha alguma vez cogitado quebrar a sua lealdade institucional com a tutela. Serviu nestas funções três primeiros-ministros, a todos levou as suas preocupações e a todos manifestou as suas posições.

Como responsável máximo pela coordenação do Sistema de Informações, Júlio Pereira enfrentou também momentos de debate público sobre os limites da atuação dos serviços de informações e o grau de fiscalização parlamentar.

Devemos destacar do seu legado a consolidação da cultura institucional baseada na legalidade, responsabilidade, independência e prestação de serviço público. Nessa medida, Júlio Pereira deu um grande contributo para que o Conselho de Fiscalização dos Serviços possa exercer a sua atividade fiscalizadora sem, praticamente, qualquer limitação.

Olhando para o legado imaterial, Júlio Pereira deixou a sua marca na cultura institucional dos Serviços pelo exemplo que deu de rigor no exercício da atividade de informações, pela dedicação e discrição que manteve no exercício de funções e pelo testemunho que deu de lealdade institucional.

A lealdade era para Júlio Pereira um dos valores estruturais da honorabilidade. Todas as situações que configuraram quebras de lealdade institucional ou pessoal traziam ao de cima, à meia-luz do seu Gabinete, na Gomes Teixeira, o homem simples, tangível, amável e lúcido que sabia o que fazer do sofrimento para que ele não fosse causa de maior dano. Era a dimensão do homem transmontano, mais do que a de Secretário-Geral, que ele sentia ter sido vilipendiada. Na verdade, Júlio Pereira quando abria as portas de casa e do coração, era um anfitrião de uma hospitalidade e de uma dedicação raras.

Conhecia todos os funcionários dos Serviços, raramente se esquecia dos seus nomes. Não era pessoa de fazer grandes elogios, nesse aspeto era mesmo muito parco, mas todos sabiam quando gostava ou não gostava de um trabalho, de uma atitude ou de um projeto. Quando gostava, procurava uma forma discreta de colocar uma questão, mostrar interesse, procurar saber mais… quando não gostava, ficava-se pela irrelevância do assunto votado ao silêncio.

Era avesso à exposição mediática dos Serviços quer pelos bons motivos quer pelos menos bons. Neste aspeto, era um conservador e tinha muita consciência de que, embora consolidado o regime democrático, Portugal era uma democracia recente e ainda mais recentes os seus Serviços de Informações. Mas lá chegaria o tempo de se deixar convencer e acabou por dar passos importantes para se abrir os Serviços à sociedade civil.

E recordo como aderiu à Cultura de Informações, isto é, à consciencialização da sociedade civil para o papel dos Serviços de Informações em Democracia, quando me encontrava como Oficial de Ligação do SIED em Madrid, depois de o ter levado a participar numa Conferência sobre Cultura de Informações, em Madrid, organizada pelo serviço espanhol, o Centro Nacional de Inteligência. Aderiu de tal forma que passamos a organizar, em parceria com a Universidade Nova de Lisboa, conferências públicas, com oradores nacionais e estrangeiros sobre a Cultura de Informações. De grande impacto público e académico.

De entre as atividades que mais rapidamente o tiravam do Gabinete, estava o processo de recrutamento. Acreditava nas novas gerações e na diversidade de experiências e de opinião como fator de qualidade para os Serviços

Júlio Pereira tinha uma visão, estratégia e determinação. Não se concretizou, no seu tempo, tudo o que planeou. Como dizia, citando Gabriel Garcia Marques, para um homem conseguir sobreviver, a memória do coração esquece aquilo que foi mau e conserva aquilo que foi bom. Não se resignou, mas o que dele dependia fez.

Algum tempo antes de deixar de ser Secretário-Geral, Júlio Pereira foi para o Forte da Ameixoeira e passou algumas tardes na nossa carpintaria, na companhia de um velho amigo, este beirão, que dedicou toda a sua vida e saber fazer, aos Serviços. O mestre Augusto esteve pacientemente a ensinar o seu discípulo a construir uma pequena caixa de madeira que haveria de servir um propósito simbólico.

Este comportamento foi tão surpreendente que não houve quem não tentasse interpretá-lo. Tenho hoje, por certo, que as teorias elaboradas foram mais complexas do que a realidade. Júlio Pereira apenas queria, antes de voltar à “Terra Fria”, ao seu reduto em Trás-os-Montes, aprender com o Augusto a fazer uma caixa.

Na sua despedida, na sede do SIS, entregou-me essa caixa e dentro dela, o livro de espionagem com o título “Um Traidor entre Nós”, de John le Carré. Disse apenas, “estava a ler este livro quando aconteceu algo que foi muito marcante na minha carreira”. Deixou a cada um dos presentes o desafio de compreender o significado de outros objetos que também vinham na caixa, mas que vou manter em reserva. Júlio Pereira não era só previsível, tinha imenso sentido de humor e, quando queria, era capaz de surpreender. E lá está a sua caixa nas vitrines do corredor da direção do SIS:

Já muito doente, veio a público, pela última vez que o vivemos, em defesa do SIS. Como sempre lúcido, leal e justo. A comunidade das Informações orgulhou-se, porque quando ele falou, foi ouvido e respeitado.

Nos últimos tempos de vida, ao telefone e com toda a calma, disse-me: “ Não estou preocupado por mim. Estou preocupado com quem cá deixo.”

Já nos faz muita falta, Dr. Júlio. Onde esteja, Dr. Júlio, Cuide nós!

Obrigado.